Nota de Repúdio da Tamo Juntas sobre o crime de estupro de vulnerável e a Declaração da Ministra Damares Alves

Caso grave tomou repercussão na imprensa pela violência sexual e institucional sofrida por uma criança de apenas 10 anos que está grávida, vítima de estupro, praticado pelo próprio tio, no município de São Mateus-ES.
A Tamo Juntas, Assessoria Multidisciplinar para Mulheres em Situação de Violência, vem a público manifestar seu repúdio e exigir o cumprimento imediato da legislação brasileira tendo em vista a flagrante violação dos direitos da criança, de apenas 10 anos, que aguarda análise do Tribunal de Justiça do Espírito Santo para que realize procedimento de interrupção de uma gestação resultado de abuso sexual.

Esta criança é abusada desde os seis anos pelo tio e, aos dez anos, engravidou em decorrência do crime de estupro de vulnerável. Essa menina teve sua saúde física, emocional e social amplamente violada. E pela própria legislação ela tem garantido direito de interromper essa gravidez.

No Brasil, existem duas situações em que o aborto é permitido; quando há risco de vida para a gestante e se a gravidez resulta de um estupro (artigo 128 do Código Penal). A vítima nesse caso se enquadra nas duas possibilidades de aborto legal no país. Mais do que uma permissão do Estado, o aborto nas situações acima é um direito legalmente instituído e não está sujeito a qualquer análise do Poder Judiciário. A situação desta criança escancara a violação dos direitos das meninas e mulheres no Brasil que; ao invés de garantir um abortamento seguro, como determina a lei, o Estado age como violador -ao impor, sob perspectivas religiosas, uma gestação forçada a uma criança vítima de abuso sexual.

Ao passo disso, como manifestação do estado de exceção atual no Brasil, temos o sequestro das políticas públicas do Estado, pelo fundamentalismo cristão. A proposta da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, ao se manifestar publicamente sobre o caso, falou em “ajudar” e “cuidar” da família e da criança, em troca de manter uma gravidez -resultado de um estupro- em uma menina de 10 anos, nos causa repugnância. Ao Estado não cabe ajudar, mas prestar a assistência devida na interrupção da gestação de forma segura e, portanto, urgente. Ao Estado não cabe ser o proprietário do corpo e da capacidade reprodutiva das mulheres. Ao Estado cabe garantir a proteção integral dos direitos desta criança, garantindo-lhe o atendimento para interrupção da gravidez sem sujeitá-la a mais violações. Ao Estado, cabe garantir os direitos e sexuais reprodutivos como direitos humanos.

Gravidez imposta é tortura! Soma-se a isso, o risco de morte materna muito maior entre meninas de 10 a 14 anos, pela precocidade da gestação – colocando a vida dessa criança em risco a cada dia que passa. Essa criança não deve ser ainda mais penalizada por toda a violência sexual que sofreu, sendo a interrupção da gestação uma medida urgente e necessária para resguardar sua dignidade e integridade física e psicológica. Exigimos providências imediatas no cumprimento da lei para interrupção imediata desta gestação.

Combater o abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes é um dever de todos.

Voluntária Naiara Bispo (Assistente Social)

 

O dia 18 de maio é o dia Nacional do combate ao abuso e à exploração sexual contra crianças e adolescentes. A data foi escolhida devido ao “ Caso Araceli”, que ocorreu em Vitória (ES), em 18 de maio de 1973. Araceli era uma menina de 08 anos de idade, que foi raptada, estuprada e morta por jovens de classe média. Esse crime, até hoje está impune.

A data é importante para nos lembrar que assim como a família e o Estado, a sociedade também tem o dever de proteger de maneira integral a criança e o adolescente. A luta para combater o abuso e conscientizar as pessoas para que entendam que criança e adolescente são sujeitos de direito, é diária e árdua.

É de extrema importância tratar do assunto abertamente, tanto com crianças (de acordo com sua faixa etária), quanto com os adultos para que casos de assédio e exploração deixem de ser tratados como invenção da cabeça da criança. Vale lembrar que toda criança e adolescente tem direito ao desenvolvimento de sua sexualidade de forma segura, e nós enquanto sociedade temos que garantir esse direito.

Trabalhar a prevenção de forma intensificada em toda a sociedade é um grande passo para que crianças e adolescentes e a família aprendam a identificar, se defender e denunciar casos de abusos e assédios, que na sua maioria são cometidos por pessoas próximas (vizinhos, amigos e etc) e familiares( pai, tio, avô, irmão, primo e etc). Segundo dados do disque 100 mais de 70% dos casos de violência sexual contra criança e adolescente acontecem dentro de casa.

Ensinar as crianças a conhecerem seu próprio corpo e reconhecerem que há algo de errado quando alguém a toque de maneira constrangedora ou a exponha a cenas pornográficas, é uma maneira de prevenção. Lembrando que ao ensinar-lhes essa maneira de prevenção nós não estamos induzindo ao sexo, estamos na verdade encorajando-as a denunciar. E nós também devemos ficar atentas/os e nos tornar uma fonte de segurança para essa criança.

Preparar também professores para que consigam identificar através do comportamento dos alunos qualquer mudança e torna-los uma fonte segura para que as crianças possam denunciar, caso a família seja a agressora ou não consiga identificar o abuso.

Enfim, é um dever meu, seu e de todos nós, garantir que crianças e adolescentes não tenham seus direitos violados. Para realizar denúncia você pode ligar para o Disque 100, para o 190 ou pode entrar em contato com o Ministério Público do seu Estado e realizar a denúncia. Como diz uma Assistente Social e amiga, Lucy Luz: “ Toda criança é responsabilidade nossa.”

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