Presidente da OAB-MT é preso suspeito agredir a mulher dele

O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso (OAB-MT), Leonardo Campos, de 41 anos, foi preso na noite dessa quarta-feira (27) suspeito de agredir a mulher dele, Luciana Póvoas Lemos, de 42 anos, em Cuiabá. Leonardo negou as agressões (veja a versão dele ao final da matéria) e foi liberado na manhã desta quinta-feira (28).

De acordo com a Polícia Militar, os policiais foram chamados pela mulher de Leonardo, que também é advogada, por volta de 22h no condomínio do casal, localizado no bairro Goiabeiras.

Luciana contou que Leonardo chegou em casa e eles tiveram uma discussão. Ela afirmou que foi empurrada e xingada pelo marido. Também revelou que não foi a primeira vez que isso aconteceu.

No boletim de ocorrência, a mulher detalhou à PM que o marido aparentava ter ingerido bebida alcoólica.

O advogado foi conduzido pela PM à Central de Flagrantes do bairro Verdão, em Cuiabá.

O advogado Rodrigo Marinho, da Associação Brasileira de Advogados Criminalista (Abracrim), acompanhou o caso.

Autuado na Lei Maria da Penha

De acordo com a Polícia Civil, o caso foi registrado como’ injúria real com vias de fato’.

O suspeito foi conduzido pela equipe da Polícia Militar para a delegacia, ouvido pela delegada plantonista e foi autuado em delito flagrante delito pelos crimes previstos no Artigo 140 do Código Penal (injúria pela Lei Maria da Penha), e Art. 140 – § 2º.

O caso será encaminhado para a Delegacia da Mulher de Cuiabá.

Outro lado

Em nota enviada à imprensa no final da manhã desta quinta-feira, o presidente da OAB negou as agressões.

Na nota, o presidente afirma que, na delegacia, Luciana prestou o depoimento assistida pela presidente do Conselho Estadual de Defesa da Mulher e também afirmou – está registrado em Boletim de Ocorrência – que não houve agressão. Tanto que não houve sequer necessidade do exame de corpo de delito.

Publicado originalmente AQUI

Sou uma mãe de 37 anos e passei 7 dias online como uma garota de 11 anos. Eis o que aprendi.

NOTA: Esse artigo mostra conteúdo sexual e descrições de abuso infantil que podem ser perturbadores a alguns leitores. As mensagens, imagens e conversas que apresento aqui são reais.

Estou em um banheiro com a bainha de um moletom azul claro embaixo do meu queixo enquanto faço um curativo áspero ao redor da minha caixa torácica. O espelho serve como guia enquanto envolvo e envolvo repetidamente as ataduras em volta do meu sutiã esportivo, amarrando meus seios. Saio do banheiro e encontro minha equipe esperando.

“Isso parece ok?”

Recebo acenos de cabeça como resposta, como a arte de Avery direciona, então levanto meus braços e inclino a cabeça em direção à câmera. Normalmente, eu não estou em roupas consideradas para garotas adolescentes. Normalmente, eu não tenho unhas pintadas com esmalte brilhante, ou chiquinhas de cabelo neon nos pulsos. Normalmente, estou vestida, eu suponho, como uma mãe média de 37 anos. Com sapatos razoavelmente confortáveis.

Reid tira algumas fotos minhas. Ela vai com Avery para o nosso centro de comando improvisado — uma sala de jantar reaproveitada, agora coberta com quadros de cortiça, mapas, papéis e monitores de computador. As sobrancelhas de Will franzem enquanto ele rapidamente edita as fotos.

Vou para a cozinha para dar espaço para ele. Estamos nos preparando para a parte mais pesada do dia, que sabemos por experiência própria que será acelerada e emocionalmente desgastante.

“Está pronto”, Will diz do centro de comando. Alguns de nós nos reunimos em frente à tela de computador e examinamos.

“Sim, eu compro”, diz Brian. Brian é o CEO da Bark, a companhia que está liderando esse projeto. A Bark usa a Inteligência Artificial para alertar pais e escolas quando crianças estão sofrendo situações como cyberbullying, depressão, ameaças de violência — ou, nesse caso, sendo alvos de predadores sexuais. Atualmente, cobrimos cerca de 4 milhões de crianças, e analisamos ao redor de 20 milhões de atividades por dia. Observo Brian estudando a tela de computador e considero sua avaliação. Eu aceno e suspiro. Também compro.

Com a ajuda do contexto — vestimenta, plano de fundo, estilo de cabelo — e a mágica da manipulação de imagem, não estamos mais encarando uma foto minha, uma mulher adulta com pés de galinha. Estamos vendo uma foto de uma garota de 11 anos fictícia chamada Bailey, e não importa quantas vezes façamos isso, os resultados ainda são enervantes. Não porque estamos criando uma criança do nada, mas porque estamos colocando Bailey deliberadamente em perigo para mostrar exatamente quão difundida é a questão predatória para a geração Z.

A maioria das garotas de 11 anos são pré-puberes. Ainda não tiveram a primeira menstruação, e geralmente elas não usam sutiãs que são categorizados com letras e números para definir tamanhos. Seus hobbies e interesses variam, mas amplamente não estão pensando sobre relações sexuais ou órgão sexuais ou sexo de forma alguma.

Mas seus predadores estão.

“Obrigada, odeio isso”, eu brinco, citando uma frase popular da internet e ganhando uma risada compreensiva. O clima na sala é sempre um pouco sombrio, e as piadas tendem para o macabro. Talvez para alguém de fora elas pareçam grosseiras, mas para qualquer um que trabalhe lado a lado conosco, é necessário um pouco de humor para ajudar-nos no dia de hoje.

Com a foto pronta para ser lançada, todos nos dirigimos para a sala de mídia onde eu conecto um iPhone numa grande tela de TV. Sentamos em sofás e poltronas, e Nathan ajusta uma câmera de vídeo em um tripé apontado para a TV. As evidências são preciosas e mantemos as câmeras rodando para garantir que todas as interações envolvendo atividades criminosas tenham uma trilha digital para nossos contatos na aplicação da lei.

Nathan checa a iluminação e depois o áudio. Josh coloca uma pilha de moletons sobre a mesa de café e eu agradeço.

“Está pronta?”, Josh me pergunta.

“Sim,” eu minto um pouco. Nunca estarei de fato pronta.

Durante o dia, estamos todos no convés. Há chamadas a serem feitas, fotos a serem editadas, evidências a serem catalogadas. Mas à noite, sou só eu no bastão. O trabalho é frequentemente — para ser honesta — solitário. Isolador. Devastador. Essa noite, porém, vamos dividir o fardo, e sou grata pela companhia. Mas ainda sou eu onde pega fogo.

Menos de um ano atrás, Brian e eu organizamos um encontro em que tivemos um embate para encontrar a maneira exata de conversar com pais sobre o aliciamento online. No passado, quando a Bark tinha um time menor, nos deparamos com um caso particularmente angustiante de um predador online abusando de uma garota do ensino fundamental. Ela tinha apenas 12 anos, e esse homem a estava aliciando através do e-mail escolar dela, coagindo-a a enviar vídeos dela mesma performando atos sexuais. Nós sabíamos que pessoas como ele estavam por aí, mas nos surpreendemos ao ver com que rapidez e facilidade ele conseguiu manipular essa criança.

Somente em 2018, a Bark alertou ao FBI sobre 99 predadores sexuais de crianças. Em 2019? Esse número supera 300 — e ainda estamos contando. Cada um desses casos representa uma real experiência infantil que causa verdadeiro dano, e nosso desafio é ajudar pais e escolas a entender essa nova realidade. Mas como contamos histórias sem pedir para as famílias se exporem demais? Como explicarmos o aliciamento infantil a uma geração que não cresceu com esse perigo? Números, apesar de informativos, são abstratos e fáceis de encobrir.

Eu estava frustrada com o problema que estamos enfrentando, batendo minha caneta sobre a mesa da conferência, e pensando em voz alta. “Quando pais pensam sobre predadores”, sugiro a Brian, “eles pensam em alguém jogando seus filhos em um porta-malas de um carro e fugindo. Eles não pensam sobre o abuso escondido sob nossos olhos que acontece online. Num mundo perfeito, compartilharíamos nessa conversa sobre o atual predador, mas isso parece traumatizar a vítima de novo e de novo…”

Eu parei. Tínhamos andando em círculos nesse mesmo conceito.

“E se nós criássemos contas falsas para demonstrarmos aos pais o que pode acontecer online?”, Brian perguntou. Levantei as duas sobrancelhas para essa ideia. Esperei um pouco para ver se ele estava brincando. Não estava.

Isso foi há nove meses atrás. Desde então, criamos um time inteiro focado na reunião improvisada que Brian e eu tivemos naquela sala de conferências. Estabelecemos relações de trabalho contínuas com agências governamentais de aplicação da lei cujos acrônimos têm três letras. Fizemos testes, novas contratações, e inúmeras outras reuniões. Vimos prisões e sentenças. Fornecemos testemunhas para julgamentos e informações valiosas para investigações.

Minha função mudou para liderar esse novo e especial projeto feito em equipe. E para preservar a integridade desse projeto, essa equipe especial trabalha largamente nos bastidores e fora do palco. Nós não aparecemos na composição do website, e nosso perfil no Twitter mostra imagens de objetos inanimados ao invés de nossas faces reais. Brian e eu também somos a ponte entre a equipe e os agentes da lei, com reuniões regulares e atualizações de dados, assegurando que estamos sempre trabalhando não somente sob os parâmetros deles, mas também dos promotores de acusação. Ninguém quer que nosso árduo trabalho seja desperdiçado por causa de falta de evidências ou até por causa de uma dica errônea de aprisionamento.

Aqui, agora, nessa sala de reunião, não é nosso primeiro rodeio. Não é nem nosso segundo ou terceiro. Durante esses últimos nove meses, eu fui a Libby de 15 anos, a Kate de 16 e a Ava de 14. Tenho sido uma estudante do segundo ano de franjas, e uma jogadora de lacrosse criada pela tia, e uma animadora de torcida júnior ansiosa pelo baile de formatura.

Na atualidade, somos veteranos experientes — mas essa é a primeira vez que usamos uma garota tão jovem. Hoje à noite, meu peito está friamente preso e minha linguagem parece significativamente menos madura.

Hoje à noite, tenho 11 anos, e sou Bailey.

“E aqui vamos nós”, eu pronuncio no cômodo.

“Você consegue fazer isso, Sloane”, Reid diz para mim, batendo levemente no meu ombro, mas ainda seguramente. O queixo de Reid é severo e ele está para frente fixamente. Sendo uma advogada criminalista, Reid se mudou para o setor privado e se juntou à Bark assim que lançamos esse projeto. Com conhecimento em direito e experiência em crimes cruéis, Reid é uma adição bem-vinda à equipe. Para quem está de fora, um tapinha no ombro pode parecer algo rígido, mas, de Reid, parece um cuidado e apoio genuínos.

Pete — militar reformado e hoje segurança privado — que tem literalmente três vezes meu tamanho, se senta em frente a sala de estar. Essa noite certamente tem pouco risco, mas nos dias em que nos sentimos significantemente assustados, ele nos proporciona um pouco de paz de espírito.

Eu posto a foto no Instagram — um selfie genérico e inócuo de Bailey com um sorriso de orelha a orelha — e coloco uma legenda:

“entusiasmada para ver meus amigos na festa da carly nesse fim de semana! Ilsm!!” (abreviação em inglês de ‘eu te amo muito’) seguido por uma série de emojis e a hashtag #friends

A foto é postada pelo Instagram e esperamos de maneira silenciosa até que algo nesse cenário mude.

Essa parte nunca demora. Sempre é enervantemente rápido.

No início da semana, já na primeira noite como Bailey, duas novas mensagens chegaram dentro de um minuto após a publicação. Ficamos boquiabertos enquanto os números ecoavam na tela — 2, 3, 7, 15 mensagens de homens adultos ao longo de duas horas. Metade deles podem ser acusados de transferir conteúdo obsceno para menores. Naquela noite, respirei fundo e sentei-me com a cabeça apoiada nas mãos.

Nove meses nisso, e ainda nos sentimos atordoados pela amplitude da crueldade e perversão com as quais nos deparamos. Eu imagino que a tendência é esse atordoamento continuar essa noite.

“Está vindo”, diz Avery, e então todos nós olhamos para a TV. As notificações do Instagram mostram que Bailey tem três novos pedidos de conversa.

“Oi! Estava apenas me perguntando: há quanto tempo você é modelo?”

“Rsrsrs. Não sou modelo”, digito apressadamente, apertando enviar.

“Não!”, ele responde, cheio de falsa incredulidade. “Você está mentindo! Se não é, você deveria ser uma modelo! Você é tão BONITA!”

@ XXXastrolifer aparenta estar nos 40 e poucos, mas ele diz a Bailey que tem 19. Quando ela diz que tem apenas 11 anos, ele não vacila.

A próxima mensagem é de outro homem que cumprimenta Bailey de maneira inofensiva.

“Olá! Como você está essa noite?”

“Oi, estou bem e você?”

“Eu vou bem, obrigado. Você é uma garota muito bela.”

Eu ouço Josh murmurar ao meu lado: “Como um relógio.”

“Uau! Obrigada!”

“É a verdade. Eu amo suas fotos aqui. Sua mãe e seu pai já deixam você ter um namorado?”

Bailey diz que não, mas também diz que isso não é algo sobre o qual eles conversam muito. Pergunto aos pais que estão comigo no cômodo. Eles concordam. Ter um namorado não é algo que passe na cabeça de uma menina de 11 anos de idade.

“Talvez eu possa ser seu namorado de Instagram se você quiser. A decisão é sua.”

Faço uma pausa para responder @ XXXastrolifer . A conversa termina como a maioria delas acaba — dentro de cinco minutos ele envia a Bailey um vídeo dele mesmo se masturbando.

“Você gosta disso? Já viu um desses antes?”

Volto minha atenção novamente para @ XXXthisguy66, aquele que seria o namorado de Instagram. Em questão de minutos a conversa foi de “Um namorado de Instagram significa que podemos conversar, mandar selfies um para o outro, e apenas estarmos lá um para o outro” para “Já que estamos juntos, você está pronta para trocar selfies sexy?”

Ela tem 11 anos, e não entende muito bem o que ele quer dizer. Ele envia uma foto de seu pênis ereto, pede uma foto dela sem camisa, e assegura a ela que ele sabe ensiná-la como proceder.

“Bem, muitos namorados gostam quando suas namoradas fazem um boquete neles. Você sabe o que isso significa?”

“Não, não sei.”

ELE: “Amo suas fotos aqui. Sua mãe e seu pai já deixam você ter um namorado?” ELA: “Não, nós não conversamos sobre isso, na verdade.” ELE: “Talvez, se você quiser, eu posso ser seu namorado de Instagram. A decisão é sua. Podemos conversar, trocar selfies, e apenas estarmos aqui um para o outro” ELA: “Sim, parece legal.” ELE: “Tenho que trabalhar até meia noite, mas essa selfie que você postou segurando o livro vai me ajudar a enfrentar o turno.” ELA: “Oh, não, é tããão tarde.” ELE: “Tudo bem, bebê, estou acostumado. Já que agora estamos juntos, você está pronta para trocarmos fotos sexy?” “Eu fico duro olhando para você.” “Você quer ver meu pau? Acho que gostaria dele.” “Muitos namorados gostam quando suas namoradas fazem boquete neles. Você sabe o que isso significa?” ELA: “Não, não sei.” ELE: “Isso significa que você pega o pau com suas mãos e então o coloca na sua boca e você o chupa como se estivesse chupando o dedão da sua mão.”

“Isso significa que você pega o pau com suas mãos e depois o coloca na sua boca e então você o chupa como se estivesse chupando seu dedão da mão.”

“Não entendo isso”, Bailey responde.

“Você pega meu pau. O coloca na sua boca, e então você o chupa.”

“Deus!”, Reid interjeita, e eu olho para ela. “A primeira conversa de uma criança sobre sexo não deveria ser com um homem que quer estupra-la.”

Retorno à tela a minha frente.

“Mas, por que? ”

“Algumas garotas gostam, mas é bem gostoso para o garoto. É apenas algo que garotos gostam. Mas o que um garoto e uma garota realmente gostam de fazer juntos é se eu colocar meu pau entre suas pernas e enfiá-lo em você. O nome disso é sexo. Ou foder.”

“Oh. Eu aprendi sobre sexo.”

“Assim que tiver uma chance, me envie uma foto sua sem camisa, ou me envie uma foto do que existe entre suas pernas. Eu realmente gostaria disso.”

“Que tipo de foto? Entre minhas pernas?”

“Você conhece sua vagina? Algumas pessoas a chamam de perereca. Eu gostaria de vê-la. Porque é aí que meu pau entra. Mas eu gostaria de ver seu peito também.”

“Eu realmente não tenho seios ainda”, Bailey responde. Ela não tem. Ela usa um sutiã para o ritual e camaradagem do treinamento, mas na verdade ela não precisa de um. Não ainda.

“Tudo bem. Tenho certeza de que você parece ótima da mesma forma. Eu chuparia seus mamilos de qualquer jeito.”

“Eu não sou boa nesse negócio de tirar fotos de corpo.”

“Tudo bem. Você poderia enviar uma foto de você chupando seu dedo? Dessa forma posso imaginar você me fazendo um boquete como conversamos antes. Eu te enviarei outra foto do meu pau.”

Ele envia.

ELE: “Isso significa que você pega o pau com suas mãos e então o coloca na sua boca e você o chupa como se estivesse chupando o dedão da sua mão.” ELA: “Eu não entendo.” ELE: “Você pega meu pau. Você o coloca na boca. Você o chupa.” ELA: “Mas, por que?” ELE: “Algumas garotas gostam disso, mas é bem gostoso para o garoto. Isso é apenas algo que garotos gostam. Agora, o que um garoto e uma garota realmente gostam de fazer juntos é se eu colocar meu pau entre suas pernas e enfiá-lo em você. Isso se chama sexo. Ou foder.” ELA: “Oh. Eu aprendi sobre sexo.” ELE: “Assim que você tiver chance, envie-me uma foto de si sem a camisa, ou envie-me uma foto do que existe entre suas pernas. Eu realmente gostaria disso.” ELA: “Que tipo de foto? Entre minhas pernas?” ELE: “Você conhece sua vagina? Algumas pessoas chamam de perereca. Eu gostaria de vê-la. Porque é aí que meu pau entra. Mas eu gostaria de ver seu peito também.” ELA: “Eu realmente não tenho seios ainda.” ELE: “Tudo bem. Tenho certeza de que parece ótima apesar disso. Eu chuparia seus mamilos de qualquer jeito.” ELA: “Não sou boa nisso de tirar fotos de corpo.” ELE: “Tudo bem. Pode me enviar uma foto de você chupando seu dedão da mão? Dessa forma posso imaginar que você está me fazendo um boquete como conversamos antes. Vou te enviar outra foto do meu pau.”

Eu saio da conversação com @ XXXastrolifer e vejo outros nove pedidos pendentes. Meu telefone toca alto através das caixas de som da TV, surpreendendo a todos nós. É uma vídeo chamada do Instagram de um novo predador.

Eu tomo a rápida decisão de pegá-lo, largo o telefone, troco minha camiseta por um capuz. A equipe na sala sabe o que estou fazendo.

“Fiquem quietos, todos”, Nathan atesta o desnecessário. Com o capuz levantado e a sala mal iluminada, inclino a cabeça para obscurecer meu rosto e atender à chamada. Dominique, à minha esquerda, permanece alerta. Ex-figurinista, suas habilidades com peruca e maquiagem de palco são incomparáveis. As fotos das minhas personagens lado a lado nem parecem estar relacionadas. Eu sou latina. Sou parte asiática. Sou loira. Sou ruiva.

“Hey. Como você está? Quero te ver.” Ele inclina o telefone, e está deitado na cama e sem camisa. Eu elevo minha voz uma oitava.

“Ummmmmmm. Sou tímida.”

“Não, bebê, não. Não seja tímida.” , ele canta. Sua voz suave e persuasiva.

“Eu não aguento essa porra!”, diz Will, e ele sai da sala, balançando a cabeça.

A regra na Bark é que podemos fazer uma pausa sempre que quisermos. Podemos dar um passo para fora em qualquer momento que sentirmos necessidade. Podemos pegar fôlego, podemos marcar uma sessão de terapia. Podemos até sair da equipe.

Isso me inclui, e eu sou o rosto (manipulado) das nossas personagens.

Ao final de duas horas e meia, eu tive sete chamadas de vídeo, ignorei cerca de uma dúzia de outras, conversei por texto com 17 homens (alguns já haviam me enviado mensagens antes, se atendo à esperança de ter mais interações), e vi a genitália de 11 deles. Também recebi (e subsequentemente neguei) vários pedidos de nudez acima da cintura (apesar de deixar claro que os seios de Bailey ainda não se desenvolveram) e pedidos de nudez abaixo da cintura.

Os roteiros que vemos são largamente os mesmos.

Você é tão bonita.

Você deveria ser modelo.

Sou mais velho do que você.

O que você faria se estivesse aqui, bebê?

Você tocaria meu pau se estivesse aqui?

Você já viu um pau antes?

Bebê, você é tão linda.

Converse comigo, bebê.

Eu quero colocar meu pau na sua boca, bebê.

Apenas atenda minha vídeo chamada, bebê.

Não seja tímida, bebê.

Bailey é uma criança. Assim como Libby, Kait, Ava, Alessia, Lena, Isabella. Todas as minhas personagens são crianças — legalmente, emocionalmente, fisicamente, intelectualmente. Elas não têm agência, nem capacidade para consentir. Talvez a sociedade ame apontar dedos e culpar as vítimas (O que ela estava vestindo?), mas a resposta continua sendo a mesma. Elas são todas crianças. E em qualquer caso de abuso, a culpa nunca é da criança.


Agora é por volta de meia noite. Eu parei de aceitar vídeo chamadas há uma hora atrás, mas meus dedos estão digitando febrilmente. Meu cabelo está preso atrás da cabeça em um rabo de cavalo e eu estou bebendo água como se tivesse corrido meia maratona. “O corpo mantém a pontuação”, como diz o ditado, e meu corpo está pedindo trégua. A parte de trás da minha camiseta está úmida, meus olhos estão turvos, meu pescoço dói e meu coração está um pouco enjoado.

Durante uma semana, 52 homens alcançaram uma garota de 11 anos de idade. Constatamos essa estatística enquanto desligávamos a TV e a câmera de vídeo com sobriedade.

O trabalho — enquanto não necessariamente físico — cobra emocionalmente. A maioria de nós têm filhos jovens, alguns de nós com filhos das idades das personagens criadas. Chega muito perto de casa, mas você não precisa ser pai ou mãe para se sentir devastado pela predação dos mais vulneráveis da sociedade.

É fim de noite, mas cada conversa e foto precisam ser classificadas, organizadas e empacotadas para serem enviadas aos nossos contatos na polícia. Qualquer instância de material de abuso sexual infantil é enviado ao NCMEC, o Centro Nacional de Crianças Desaparecidas e Exploradas.

Eu envio uma mensagem para o agente da lei com quem trabalho e com o qual tenho mais afinidade e dou a ele uma atualização. Todos nos arrumamos para irmos para casa, e, francamente, todos parecemos um pouco machucados. Não consigo escrever essa linha sem parecer completamente auto engrandecedor, mas a dolorosa verdade é que esse trabalho é difícil e angustiante, e, literalmente, nos mantém acordados de noite. Nós poderíamos simplesmente parar. Apertar os freios. Desviar nossa atenção para o dia a dia da empresa.

Mas a simples verdade é que nós sabemos o que está em risco. A vitória mais óbvia — estamos ajudando a identificar predadores sexuais não apenas para as autoridades levarem-nos à justiça, mas para prevenir que mais crianças sejam abusadas. Nós também estamos educando pais e escolas a respeito da inacreditável realidade que existe no espaço virtual. E de um ponto de vista técnico, essas conversações que tanto reviram o estômago, estão treinando a Inteligência Artificial da Bark, para se tornar cada vez melhor em monitorar sinais de aliciamento.

Eu penso a respeito dos meus filhos. A respeito dos filhos do meu colega de trabalho. A respeito de mim mesma décadas atrás como uma jovem, incerta, e impressionável tween (criança entre 9 e 12 anos) e depois adolescente. Eu penso como me sentiria se eu fosse a Bailey. Como eu manteria os abusos para mim mesma, por medo de me julgarem culpada e me fazerem sentir envergonhada. Como eu teria sofrido secretamente e quietamente. Como eu seria uma vítima silenciosa. Como eu não desejo isso para nenhuma outra criança — minhas próprias ou de outros.

Conhecer como se dá o aliciamento na internet não é um fardo. Não mesmo. É um presente. Um que nos ajuda a virar a mesa contra os predadores. Nosso trabalho já teve como resultado a prisão de pessoas que se demonstraram propensas e desejosas de ferir crianças. A tecnologia mudou e junto com ela também mudou a forma e os métodos dos quais predadores se dispõem para encontrar, se comunicar, e machucar crianças. Se eles podem usar tecnologia para abusar crianças, nós podemos usar a mesma tecnologia para impedirmos seus crimes.

Em casa, eu não sou Bailey. Eu sou uma mãe de 37 anos em meias de lã, enchendo a máquina de lavar louças e ajudando meus filhos no dever de casa. Um dos meus filhos está aprendendo sobre ditados, provérbios e sotaques. Ela os lê em voz alta, de seu notebook. Aguente o tranco. Em bons e maus momentos. Mate dois coelhos com uma cajadada só.

“Mãe”, ela olha para mim, com o lápis posicionado no ar. “Você concorda que ignorância é uma ‘benção’?” Lavo minhas mãos e as seco em um pano de prato. Eu olho para ela, que está fazendo anotações. Eu sou uma mãe suspeita para dizer isso, mas ela é uma maravilha. Cheia de alegria e inteligência e curiosidade, assim como imagino que Bailey seria.

“Não, querida. Eu não concordo com isso”, eu digo resolutamente, puxando uma cadeira para me sentar perto dela na mesa da cozinha. Apoio-me nos cotovelos e espio o dever de casa. “O conhecimento é uma dádiva”.

Repito isso para mim mesma enquanto me levanto e limpo o balcão. Eu acredito nisso. E mesmo nos piores dias, levo isso a sério.


Isenção de responsabilidade: com muita cautela e devido a investigações criminais pendentes, nomes — incluindo o do autor — e detalhes irrelevantes foram editados por questões de privacidade e clareza.


Texto de Sloane Ryan, 14/12/2019, original pode ser lido aqui. 

Da fogueira ao microscópio: as mulheres na ciência

Faltam mãos, dedos e memória para contar quantas mulheres se destacariam no mundo do conhecimento e, mais recentemente, no mundo científico. Seria isso maior ainda, e pontuado de forma justa, se não tivessem sido apagadas e negadas dentro de suas descobertas pelo privilegiamento histórico do sexo masculino, estabelecido como o grande referencial. Muitas mulheres, ao longo da ciência moderna, foram desrespeitadas e usurpadas da divulgação e aplicação de suas pesquisas. Vemos que a história foi escrita em detrimento daquelas que construíram, como sujeitos ativos, a sociedade presente.

A desigualdade de gênero pontua, a cada leitura realizada nos quadros da memória humana, a exclusão como parte significativa dessas que, em sua condição feminina, e de diferentes formas, estavam nas contingências de sua existência, fazendo o mundo. A ciência tem, nas mãos escondidas das mulheres, um grande legado de análises científicas dos fenômenos sociais e naturais, que reinventaram e inventaram novas formas de compreensão, de agir e de transformações desses fenômenos para o bem de todos. Apesar da ciência ter sido propalada sob a luz e ótica de somente um signo, as mulheres, mesmo com todos os preconceitos de época e todas as impossibilidades dadas a elas, por meio de suas lutas conseguiram se destacar e se colocaram ativas no campo da descoberta.

À fogueira foram jogadas aquelas que se aventuraram ao protagonismo do conhecimento dos fenômenos naturais, sob a pecha de bruxas, antes que a ciência se formasse como o emblema de um novo tempo.  Aos asilos e manicômios foram conduzidas àquelas que corromperam o silêncio, mostrando além da indignação, a capacidade intelectual, crítica e artísticas desenvolvidas. Muitas consideradas como loucas, histéricas e doentes “sumiram” em suas personalidades, por não atenderem aos ditames do patriarcado erguido como pedestal de honra, qualidade e fortaleza. Infelizmente, e digo, muito infelizmente ainda, esse caso se repete em novas doses de violência contra as mulheres. Perpetua-se em formas de silenciamento e apagamento de muitas mulheres no século XXI.

Em que pese toda essa situação, muitas resistiram numa ação intensa e participativa e, mesmo dentro dos mecanismos de anulação e eliminação de suas personalidades, observações e análises, mostraram suas convicções e talentos, contribuindo em todas as áreas da ciência com seus olhares, inteligências, emoções e  teorias.

Mulheres e ciência no século XX

As mulheres começam a incidir na ciência, ainda que culturalmente e socialmente, a carreira fosse considerada imprópria para esse gênero. Entretanto, muitas tiveram lugar de destaque, a exemplo do prêmio Nobel de Física em 1903 e de Química em 1911 dado a Marie Curie. A despeito disso, a exclusão e a invisibilidade das mulheres cientistas e pesquisadoras é permeada por pensamentos extremamente conservadores e patriarcais.

Ganha corpo no conceito de gênero um contradiscurso que ativa os feminismos críticos, questionando o forte viés sexista que se interpõe na ciência. A ampliação da participação feminina nas atividades científicas gera ganhos substantivos para a sociedade nos seus desenhos democráticos que ultrapassam fronteiras e, trazem para a discussão, fatores do corpo, da vida, da política e do convívio social. Mas, mesmo assim, as desigualdades acontecem nessa dimensão que tem, no trabalho, menores remunerações e pesos diferentes no reconhecimento entre os gêneros.

A cada dia, a mobilização das mulheres derruba os muros nas áreas “tradicionalmente” tidas como masculinas, expondo a existência das lacunas e descabidos éticos e sociais relacionados à participação delas no mundo.

As conquistas feministas, ainda que apresente uma longa história de lutas, são recentes. As décadas de 1930, 1960, 1970 e 1980 foram emblemáticas.  Primeiro com o direito ao voto feminino (CF, 1934); depois com o Estatuto da Mulher Casada (Lei nº 4.121/62); logo após o Código Eleitoral (Lei nº 6.515/77); a aprovação da lei do divórcio, bem como a Constituição de 1988. Esses fatos consagram lutas de maior liberdade e autonomia à ação feminina. A objetividade, a racionalidade e a universalidade foram ampliadas nesse campo de domínio.

A posse do corpo na decisão da procriação com o advento da pílula anticoncepcional, na década de 1970, incorporou uma nova visão de mundo para os sujeitos femininos que entraram na carreira científica de forma mais emancipadas. Devido a esses ganhos, são donas do tempo de sua maternidade (ou não maternidade). Porém, em que pese esses ganhos, a disputa continuou desigual, por uma série de desvantagens legitimadas por leis e pelas relações impregnadas de estigmas à mulher.

Ao final do século XX, após lutas históricas, governos, organizações nacionais e internacionais, associações científicas, institutos de ciência, entre outros, apoiaram as iniciativas de igualdade entre os gêneros no campo da ciência. A inclusão feminina no mundo acadêmico começa a crescer e se reconhece, nas pioneiras, a coragem, a luta, a determinação e a enorme capacidade de realização de trabalho que desafiou e desafia os cânones da misoginia.

Idos medievais em que “Hipátias” foram mortas pelas mãos dos que, no alto d domínio de gênero e à bem de suas falsas e perversas “verdades”, buscaram aniquilar a paixão pelo saber que mulheres, como ela, tinham pela busca de respostas ao desconhecido. Essa cena marca a presença das mulheres na história, naquilo que desejamos não mais ocorrer. O pensamento contemporâneo nos mobiliza a expurgar uma ciência androcêntrica, colonizadora, estigmatizadora e branca. Esse debate passa a se configurar, mais fortemente, no século XXI.

Mulheres da ciência no século XXI

O século XXI demarca um novo momento, em que as lutas dos movimentos feministas colocam em cena a importância da isonomia no trabalho e a pauta da mulher pesquisadora/cientista não fica de fora desse assunto. Há um aumento considerável do número de mulheres em cursos superiores antes considerados masculinos, como as engenharias e os cursos agrários, entre outros. Importantes avanços se tornam concretos à participação no campo científico e muitas mulheres conquistam seu protagonismo. Sua presença como liderança nos centros de pesquisas e nas universidades é crescente; e o aumento das teses nas prateleiras das bibliotecas se concretiza como resultado de tantas lutas. Embora sejam concretos esses grandes avanços, a participação feminina ainda está aquém da masculina.

Novas formas de inserções compõem um mosaico de capacidade constitutiva no processo ativo e investigativo de agir com a ciência, atuando e pensando gêneros, etnias, pobrezas, meio ambiente, educação, culturas e territórios. Tais formas repercutem nos tempos atuais, com um número pequeno e desigual de pesquisadoras mundiais.

A pesquisa e a ciência ainda são caminhos difíceis a trilhar, sobretudo, para as mulheres que acumulam hoje as tarefas de serem mães, trabalhadoras, e ainda terem que provar a sua competência, mesmo em situações de desigualdade nas oportunidades. Além disso, são elas as que mais sofrem com assédios, cobranças, violências de todas as ordens, seja física ou emocional, e são vítimas de acusações, gerando um complexo de culpas, que não só diminuem sua autoestima, como a fragilizam no medo.

Sendo assim, a luta pela igualdade de direitos sociais entre os gêneros aponta para as lacunas que são direcionadas ao feminino, centrando nos aspectos políticos e econômicos, que negam a igualdade entre os salários e a importância desse, independente de qual gênero o faz e quais os resultados na sociedade.

O investimento na produção de conhecimento é redesenhado nas pautas reivindicatórias, ganhando contornos de profundas mudanças no mundo científico e acadêmico. Vimos, na crise da Covid-19, um grande número de mulheres pesquisadoras e cientistas sendo convocadas para descoberta de vacinas, remédios e procedimentos, apontando que nesse momento de quarentena, a participação em igualdade de gênero é fundamental.

Nos países em que as mulheres ocupam os lugares de chefe de Estado, respeitando a ciência, foram conduzidas políticas corretas e adequadas de contenção à pandemia, logrando os melhores resultados entre as nações afetados pela doença. Nesse âmbito entendemos que, como a política, a ciência não é “neutra” e nunca foi em relação ao gênero e, também, por não ser estática, as bandeiras levantadas há séculos buscaram superar o local de isolamento dissimulado dado às mulheres.

Por fim, a decolonização como ponto de discussão no século XXI, leva a pensar, historicamente, que no mínimo, metade da população foi proibida de fazer ciência, pelo único motivo de ser mulher.  Essa matriz opressora, no sentido dos gêneros, aponta as dicotomias e separações que excluem, silenciam e matam, levando ao flagelo o pronome “nós” e pondo em relevo o pronome “ele”.

As mulheres cientistas

O novo estar das mulheres no mundo da ciência garante uma posição mais ativa e independente no campo da pesquisa. O apoio nas possibilidades do domínio do seu próprio tempo; da posse do corpo em determinar as suas escolhas; a liberdade do fazer e querer e a razão de garantias no aspecto legislativo, por via não mais da submissão feminina, demarcam novas frentes de participação e diálogos.

O debate sobre a mulher na ciência aponta, de forma crítica, o viés sexista nas universidades e centros de pesquisa, bem como a sua sub-representação nesse cenário, ou mesmo, em outros contextos específicos, em instituições científicas. Vemos o poder e a agência de si serem pontos assumidos pelas cientistas, principalmente, quando se propõem a uma ciência que considere a maternidade, a casa e a condição de ser, ao mesmo tempo, mulher e cientista nas suas múltiplas jornadas.

Nesse percurso, as atividades desenvolvidas no campo da ciência, por elas, devem ser cumpridas, sem que haja conflitos geradores de dor e culpas por terem que executar uma tarefa em detrimento da outra. As reivindicações das mulheres fortalecem a visão dialogal, democrática, participativa, polifônica, inclusiva, equitativa e simétrica, não somente do ponto de vista de gênero, mas também aos fatores que se ligam aos liames das irresoluções do quadro sociopolítico vivido em sociedade. Nesse bojo há de se considerar fatores sociais como composição das famílias, etnia, maternidade e trabalho.

Essas questões requerem medidas às diferentes representações de trabalho, para que se reconheça as especificidades envolvidas das mães cientistas/pesquisadoras, no seu labor. A essas deve ser garantida a participação em eventos, reuniões constantes e profundas, entre outros. Assim, reforçar a importância da representatividade das mães no mundo acadêmico e científico é fato de luta que tem aportado na igualdade de gênero. Qualquer situação que diminua ou impeça a representatividade das mulheres na Ciência há de ser superada.

Dentro do pressuposto acima, habita sempre outras questões que são perpassadas por motivos teóricos e metodológicos voltados, do mesmo modo, à baixa participação de cientistas pobres, negras, mães e gays nesse cenário. A complexidade dessa realidade traz a produção e o fazer científico nas assimetrias herdadas que evocam, no tempo vivido, a equidade dos gêneros, bem como o colapso patriarcal e o fim da submissão ancestral.

Uma homenagem

Homenagear é sempre uma ação que remete ao reconhecimento de algo ou alguma coisa feita por um alguém. E a homenagem aqui vai para as mulheres pesquisadoras/cientistas como emblema de um caminho de possibilidade. A história nos presenteia com a existência de mulheres que conseguiram conquistar seu lugar na ciência.

O cerzir social dos movimentos feministas tem em vários nomes e rostos, nacionais e internacionais, as incontáveis mãos femininas colocadas em pelejas e em olhos vertidos na resposta e concretização de suas hipóteses. Herdamos delas os caminhos colocados na práxis do saber e do prazer da descoberta.

Cabe destacar que com todos os obstáculos postos às mulheres na ciência, as mulheres negras tiveram que superar, além do preconceito de gênero, o racismo estrutural, a necropolítica  e limitações impostas por essas ideias.

Anastácias escravizadas povoaram esse universo de mulheres amantes do conhecimento e conhecedoras das ervas e das curas. Num mundo entre iguais ela teria a possibilidade de manejar o microscópio e de hoje ser lembrada como a “Cientista Anastácia”.

Homenageio a todas as mulheres amantes do conhecimento, as mulheres cientistas que assinam cada vez mais as pesquisas, dando novos contornos ao mundo.

E agora…

Iniciei o texto dizendo que faltariam mãos, dedos e memória para contar essas mulheres. Nessa homenagem milhões ficaram de fora. Isso porque tantas e tantas outras estão a comandar equipes de pesquisas, estão em seus laboratórios, bibliotecas e escritórios, criando projeto mundo afora. Em sua maioria são mães cientistas, professoras e pesquisadoras, que apesar das dificuldades no meio acadêmico e científico, continuam, perseveram, organizando seus saberes, numa tentativa de naturalizar a maternidade e sua condição de mulher na academia e centros de ciência.

Ao fim e ao cabo, e não por final, me cabe homenagear as mulheres médicas, enfermeiras, nutricionistas, laboratoristas, pesquisadoras, por esse momento tão singular de uma Covid-19.

Cabe homenagear aquelas que não estando diretamente na ciência, viabilizam as que estão, tornando concreto e existente esse trabalho que é de todas para todas e todos. Obrigada a todas as mulheres que se almejam numa força única: a de ser dona de suas decisões, seus corpos, vontades presentes e futuros, prazeres, sonhos, desejos, conhecimentos, descobertas e de sua Ciência! Da Ciência que é, enfim, na gramática dita, o substantivo feminino.

 

Maylta dos Anjos é professora e pesquisadora da UNIRIO e do IFRJ na área de educação ambiental, ensino de ciências e sociedade.

 

Texto Originalmente publicado em: https://diplomatique.org.br/

Marido mata mulher a facadas por causa do auxílio emergencial no Piauí

Na noite de quarta-feira (20), uma mulher identificada como Marlene Silva Santos, de 28 anos, foi assassinada a facadas no município de Caracol, a 600 km de Teresina, na região Sul do Piauí. O marido dela foi preso e confessou o crime, afirmando que os dois haviam discutido porque ela não queria dividir com ele o dinheiro do auxílio emergencial do Governo Federal. Um amigo do companheiro da vítima, também foi preso pela PM suspeito de participar do crime.

De acordo com os policias que atenderam a ocorrência, a vítima chegou a ser antedida por profissionais do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), mas não resistiu aos ferimentos e morreu a caminho do hospital. Marlene deixa três filhos pequenos.

O companheiro da vítima, identificado apenas como Leonardo, de 24 anos, se apresentou a Polícia Militar depois de ficar escondido em um matagal por duas horas. O outro suspeito preso, amigo de Leonardo, teria participado do crime. O caso será investigado pela Polícia Civil, que deve determinar qual foi a participação de cada um.

Segundo as primeiras informações, o casal estava bebendo em casa quando começaram a discutir. Em depoimento, Leonardo afirmou que a companheira não queria dividir com ele o dinheiro do auxílio emergencial. Durante a discussão, o suspeito disse que a vítima o tentou agredir com a faca, mas ele teria conseguido desarmá-la e em seguida, usou a faca para golpeá-la no pescoço. Em seguida, fugiu do local.

Leonardo foi preso ainda com a arma utilizada no crime. Os presos foram encaminhados para a Delegacia de São Raimundo Nonato.

 

Originalmente publicado em: https://www.meionorte.com

Chamado de Ação. Campanha “Cuide de Quem te Cuida”

A campanha “Cuide de Quem te Cuida” foi lançada. Vamos LOTAR A CAIXA DE E-MAIL do procurador geral do Ministério Público do Trabalho e exigir uma resposta para que os direitos das trabalhadoras domésticas sejam assegurados!
Em meio à pandemia, que no Brasil já acumula mais de 14 mil mortes, estados e municípios publicam decretos incluindo o trabalho doméstico como atividade essencial, em equivalência a bancos e mercados. *Precisamos impedir esse absurdo!*
Faça sua pressão agora no site: http://www.cuidadequemtecuida.bonde.org/
“Sempre lutamos por valorização e a sociedade nunca quis reconhecer a importância do serviço doméstico. Aí neste momento de pandemia, a casa grande que está em quarentena, não quer se dar ao trabalho de fazer as próprias tarefas domésticas. Colocar o serviço doméstico como essencial de forma generalizada é uma crueldade. As trabalhadoras domésticas também têm famílias
Compartilhe esse chamado em mais três grupos de zap pra nossa voz chegar mais longe.

Polícia de São Paulo vai investigar denúncia de abuso de cinco mulheres contra um terapeuta

A denúncia foi revelada ontem (03) no programa Domingo Espetacular, da Record TV. Segundo a investigação do Ministério Público de São Paulo, cinco mulheres se dizem vítimas do psicólogo Carlos Henrique Arouca. Ele é dono de um templo espiritual e de uma clínica de terapias e massagens.Confira nas multiplataformas do Jornal da Record os quatro boletins diários que vão ao ar também na Record TV e ainda uma versão exclusiva para o digital.

Acesse matéria: Portal R7

Terça (12), tem Live de aniversário da Tamo Juntas

Nesta terça (12), às 14h no facebook, a Ong Tamo Juntas vai realizar uma grande Live para celebrar os 4 anos do seu  ativismo dedicado à luta contra a violência às mulheres. A ação integra uma extensa agenda de atividades comemorativas e reunirá as voluntárias de todo Brasil para “cantar parabéns”.

Durante o período de distanciamento social, a Organização continua atuando e discutindo sobre o aumento de casos de violência doméstica, orientando mulheres por meio das redes sociais.  Para o aniversário também foi relançado o portal www.tamountas.com.br a fim de facilitar as solicitações de ajuda e acompanhamento de denúncias.

 Advogadas, pedagogas, assistentes sociais e psicólogas voluntárias estarão conectadas, estreitando a rede feminista de afetos com companheiras e parceiras de jornada.

Se conecte e venha celebrar 4 anos dedicados à política para mulheres na perspectiva das denúncias e combate ao machismo, ao racismo e à LGBTQIfobia.

SERVIÇO:

O Quê: Live de Aniversário TMJ
Onde: Fan page (FACEBOOK)
Quando: 12 de maio, às 14h

Relatora da ONU recebe informações sobre violência contra mulheres durante crise de COVID-19

A relatora especial da ONU sobre violência contra a mulher deseja receber informações relevantes de todos os países sobre o aumento dos casos de violência de gênero no contexto da pandemia de COVID-19. As informações podem ser enviadas por organizações da sociedade civil, Estados, instituições nacionais de direitos humanos, organizações internacionais, academia e outras partes interessadas. O prazo de submissões é 30 de junho.

A relatora especial das Nações Unidas sobre violência contra as mulheres, suas causas e consequências, Dubravka Šimonović, está acompanhando de perto os impactos da pandemia de COVID-19 no direito das mulheres a uma vida livre de violência.

Como ela alertou em uma declaração recente em 27 de março de 2020, os esforços para lidar com a atual crise de saúde podem levar a um aumento da violência doméstica contra as mulheres.

De acordo com dados iniciais das polícias e de serviços de linha direta, a violência doméstica já aumentou em muitos países, pois as medidas que impõem isolamento obrigam muitas mulheres a se manterem em casa sob o mesmo teto com os agressores, agravando assim sua vulnerabilidade à violência doméstica, incluindo os feminicídios.

O risco é agravado pelo fato de haver menos intervenções policiais; fechamento de tribunais e acesso limitado à justiça; fechamento de abrigos e de serviços para as vítimas e acesso reduzido aos serviços de saúde reprodutiva.

A relatora especial sobre violência contra a mulher deseja receber todas as informações relevantes sobre o aumento dos casos de violência de gênero no contexto da pandemia de COVID-19 por parte de sociedade civil, Estados, instituições nacionais de direitos humanos, organizações internacionais, academia e outras partes interessadas. As respostas devem refletir sobre os seguintes problemas:

1. Até que ponto houve um aumento da violência contra as mulheres, especialmente a violência doméstica, no contexto das quarentenas promovidas por conta da pandemia de COVID-19? Forneça todos os dados disponíveis sobre o aumento da violência contra as mulheres, incluindo violência doméstica e feminicídios, registrados desde o início da crise de COVID-19.

2. As linhas de apoio administradas pelo governo e/ou sociedade civil estão disponíveis? Houve um aumento no número de chamadas no contexto da pandemia de COVID-19?

3. As mulheres vítimas de violência doméstica podem ter isenção nas medidas restritivas de movimento se enfrentarem violência doméstica?

4. Os abrigos estão abertos e disponíveis? Existem alternativas para abrigos disponíveis se eles estiverem fechados ou sem capacidade suficiente?

5. As ordens de proteção estão disponíveis e acessíveis no contexto da pandemia de COVID-19?

6. Quais são os impactos no acesso das mulheres à justiça? Os tribunais estão abertos e fornecem proteção e decisões em casos de violência doméstica?

7. Quais são os impactos das atuais medidas restritivas e bloqueios no acesso das mulheres aos serviços de saúde? Especifique se os serviços estão fechados ou suspensos, particularmente aqueles que se concentram na saúde reprodutiva.

8. Forneça exemplos de obstáculos encontrados para prevenir e combater a violência doméstica durante os bloqueios provocados pela pandemia de COVID-19.

9. Forneça exemplos de boas práticas para prevenir e combater a violência contra as mulheres e a violência doméstica e combater outros impactos de gênero da pandemia de COVID-19 pelos governos.

10. Forneça exemplos de boas práticas para prevenir e combater a violência contra as mulheres e a violência doméstica e para combater outros impactos de gênero da pandemia de COVID-19 por ONGs e instituições nacionais de direitos humanos ou organismos de igualdade.

11. Envie informações adicionais sobre os impactos da crise de COVID-19 na violência doméstica contra mulheres não cobertas pelas perguntas acima.

Todas as submissões devem ser enviadas para vaw@ohchr.org o mais rápido possível e serão recebidas até 30 de junho de 2020. É necessário fazer as submissões em inglês, francês ou espanhol. Indique se não deseja que a submissão seja disponibilizada ao público.

Publicado originalmente em: nacoesunidas.org

Com isolamento social, rede de atendimento às mulheres vítimas de violência vê demanda crescer 500%

O distanciamento social é a principal recomendação mundial para reduzir a disseminação do Covid-19, o novo coronavírus. No Brasil, as mulheres negras são o segmento social mais impactado economicamente pela pandemia e ficar em casa, apesar da importância para resguardar a saúde, agrava ainda mais esse quadro de vulnerabilidade devido à violência doméstica.

Uma das provas do agravamento da vulnerabilidade dessas mulheres durante a crise do Covid-19 é o aumento da demanda da rede TamoJuntas. A iniciativa oferece apoio jurídico, psicológico, social e pedagógico gratuitamente para mulheres vítimas de agressões ou de outros tipos de violência de todas as regiões do país através das redes sociais. Desde que as medidas de distanciamento social foram decretadas pelos estados, em março, a rede de apoio tem recebido, pelo menos, 500% de mensagens a mais de mulheres em busca de ajuda.

“Antes da pandemia nós recebíamos em média cinco mensagens por dia de vítimas de violência em busca de ajuda. Agora, o número de mensagens é de 30 a 40 por dia. São mulheres pobres, sem condições de pagar por um atendimento e que buscam apoio das defensorias públicas”, conta a advogada Laina Crisóstomo, criadora da TamoJuntas.

Em São Paulo, os dados relacionados à violência contra a mulher no período de distanciamento social também chamam a atenção. O número de pedidos de medidas protetivas para mulheres que sofrem violência doméstica caiu 38% nas duas primeiras semanas de abril, após um aumento de 31% em março, mês em que também cresceu 54% as prisões em flagrante decorrentes desse tipo de crime.

De acordo com o Núcleo de Gênero e o Centro de Apoio Operacional Criminal (CAOCrim) do Ministério Público de São Paulo (MPSP), em março foram decretadas 2.500 medidas protetivas em caráter de urgência contra 1.934 em fevereiro. O número de prisões em flagrante devido a casos de violência doméstica foi de 268 em março e 177 no mês anterior.

“Os dados que mostram a diminuição nos pedidos de medidas protetivas revelam que as mulheres não estavam conseguindo sair de casa para denunciar. Por outro lado, as redes de apoio às vítimas têm desenvolvido campanhas para conscientizar as mulheres sobre a importância da denúncia. Ao potencializar a perspectiva de acesso à informação e ao conhecimento nós damos à elas o poder para que rompam com o ciclo de violência. Precisamos encorajar as vítimas a denunciarem”, avalia Laina Crisóstomo.

Laina Crisostomo – Adv. Ong Tamo Juntas

Falta de assistência às vítimas de São Paulo

No início de abril, profissionais que atuam nos Centros de Defesa e Convivência das Mulheres (CDCM) da cidade de São Paulo (SP) divulgaram um manifesto que denuncia a falta de apoio às mulheres vítimas de violência e más condições de trabalho. O atendimento é vinculado às Organizações Não Governamentais (ONGs) e à Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS). Por ser classificado como um serviço público essencial, continua em funcionamento no período de distanciamento social decretado pelo governo estadual.

Baseado em como as mulheres atendidas se reconhecem, a psicóloga Denna Souza conta que o perfil é composto majoritariamente por mulheres negras e periféricas. Uma das regiões onde os atendimentos psicológicos, sociais e jurídicos acontecem é de Cidade Tiradentes, na Zona Leste.

“O Centro de Defesa e Convivência da Mulher Casa Anastácia tem capacidade para até 100 atendimentos e antes da pandemia atendíamos em média de 120 a 140 mulheres. Neste momento, temos dedicado atenção aos casos onde a mulher está em risco iminente de morte. Uma das nossas atribuições é a captação de vagas em espaços que possam acolher a mulher e os filhos, que acabam por serem espectadores e vítimas também da violência ocorrida em casa”, explica.

A psicóloga explica que um dos problemas é a ausência de vagas nas instituições de acolhimento às vítimas e a exigência do registro do boletim de ocorrência contra o agressor. “Em algumas situações a vítima quer apenas sair do cenário de risco e começar uma nova vida sem violência ao lado de seus filhos”, conta.

Com a falta de estrutura do Estado para prestar o atendimento adequado às vítimas de violência, as profissionais têm se desdobrado para dar conta das demandas. Uma das saídas encontradas por elas é a realização de atendimentos via telefone, de modo que pudessem se preservar do Covid-19.

Denna Souza considera, no entanto, que as estratégias de enfrentamento à violência contra a mulher necessitam ser repensadas. “As contingências de violência estão presentes no cotidiano das mulheres na periferia e sua rota de rompimento às agressões sofridas tem se tornado cada vez mais crítica antes e durante a pandemia”, sustenta.

Violência contra as meninas negras

O 13ª Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 2019 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que a maioria das vítimas de estupro de vulnerável no país são crianças e adolescentes. Entre elas, 50,9% são negras. A ativista e defensora de direitos humanos, Viviana Santiago, gerente de Gênero e Incidência Política na Plan international Brasil, destaca que ao se tratar de violência contra a mulher, a situação das meninas deve estar no centro do debate, assim como das mulheres transexuais.

“Precisamos entender que a violência contra a mulher afeta as meninas, que são as mulheres no começo de suas vidas. As meninas negras continuam sendo hiperssexualidas e sendo a maioria das vítimas de todas violências, especialmente do trabalho infantil doméstico na casa de terceiros”, afirma.

Na pandemia, Viviana Santiago afirma que um dos riscos que se soma às outras violências no qual as meninas estão expostas é a de violência sexual. “No caso das meninas negras, não há sequer comoção social, haja vista que em uma sociedade racista como a brasileira, não existe menor solidariedade com as vidas negras”, ressalta.

Texto: Nataly Simões | Edição: Simone Freire | Imagem: Margoe Edwards/Getty Images

Originalmente publicado em: www.almapreta.com

Ronda prende homem que descumpriu medida protetiva

Durante ronda de rotina no bairro do Alto do Cruzeiro, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, uma guarnição da Operação Ronda Maria da Penha flagrou e prendeu o ex-companheiro de uma das assistidas da unidade, por descumprimento medida protetiva de urgência, na manhã de terça-feira (21).

O homem é acusado de tentativa de feminicídio contra a ex-companheira, com uso de arma branca. Ele estava com mandado de prisão em aberto, deferido pela juíza titular da 2ª Vara de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Salvador.

O acusado foi conduzido até a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), em Periperi, sendo encaminhado para a Central de Flagrantes.

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