Dia da Mulher Negra Latina e Caribenha

Por *Eunice Suelen da Hora e Silve Elen Braga.

Através da construção social e histórica, o racismo que se manifesta de diversas formas e locais, atinge as mulheres negras nas diversas estruturas que fazem parte, pois a natureza das relações de dominação e subordinação que operavam na escravização, refletem até hoje nos diversos índices ocupado por elas. Essa diferença é percebida nas relações entre o sexo, nos altos índices de feminicídio e violência contra mulher, nos baixos índices de escolaridade, a falta de acesso à educação e alto indices de analfabetismo, subempregos entre outros, fortalecendo assim as relações de poder, na qual foi ensinada para as mulheres negras que são submissas e inferiores, negando o protagonismo da sua história numa sociedade tão desigual.

Sendo assim, ser mulher preta diante todas as desigualdades é carregar no nosso corpo saberes da Ancestralidade de todo um povo e (re)criar em todo amanhecer estratégias de sobrevivência para vencer o racismo, machismo e todas as formas de opressões. É ser resistência, luta, companheirismo, colo e sabedoria, cuidado com os seus e com os outros na sua caminhada.

Ser mulher preta é enfrentar os obstáculos impostos pela sociedade mostrando que somos capazes de realizar qualquer atividade e sermos donas do nosso destino, mesmo que muitos ainda não sejam capazes de reconhecer e legitimar as nossas conquistas diárias, que podem nos levar onde quisermos, pois estamos fortalecidas a todo momento em não parar de buscar conhecimentos e aprimorar nossas habilidades.

Por fim, ser mulher preta é sempre está em busca para acessar os diversos espaços que por muito tempo nos proibiram de adentrar, é se posicionar quando tentarem falar sobre nossas vivencias, nossas dores, nos fazendo entender que nossas falas não tinham importância alguma para a sociedade e para as classes dominantes na qual fomos a todo tempo invisibilidades e por esse motivo a luta se torna diária para conquistar e mostrar a importância do nosso lugar de fala.

Que nesse Julho das Pretas o colo das nossas ancestrais nos sirvam de afago e que seus ombros nos sirvam de apoio para continuarmos avançando na luta coletiva para nossa sobrevivência e nosso protagonismo, pois até aqui, já sabemos que somos donas do nosso próprio caminhar.

* Assistente Sociais

Marcas da violência obstétrica atingem majoritariamente as mulheres negras

Licyane Almeida havia acabado de sair de uma consulta médica. Estava triste porque com 37 semanas de gravidez, hipertensa e em meio à pandemia de Covid-19, o novo coronavírus, não havia conseguido um atestado médico para repousar no fim da gravidez. Chorando, ela gravou um vídeo e nunca imaginou que teria a dimensão que ganhou.

O Alma Preta optou por não mostrar as imagens de uma mulher que acabou de passar por uma violência para que ela não seja ainda mais exposta nessa condição. Em vez disso, a reportagem traz a imagem da família da gestante: sua mãe, seu filho e a Emanuelly, que está a caminho, no ensaio fotográfico que ela ganhou (ver mais a baixo).

Até chegar ao momento das fotos com a família, a demonstradora de cosméticos do Rio de Janeiro teve que passar por muitas situações difíceis. A verdade é que ela não tinha que passar, mas esse tipo de situação, caracterizada como violência obstétrica é rotina no Brasil. Segundo o estudo “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado”, realizado pela Fundação Perseu Abramo, uma em cada quatro mulheres já foi vítima.

Neste caso, trabalhar de segunda a sábado, em pé durante horas e se deslocar de transporte público por mais algumas horas, nas últimas semanas de gravidez e com complicações como hipertensão estava bastante difícil para Licyane. Ela conta que já havia passado por situações desagradáveis com o médico no pré-natal.

Quando relatou uma crise de pressão, o médico disse que não receitaria remédio porque a pressão estava normal durante a consulta. “Passei mal a segunda vez e fui para a maternidade. A médica de lá foi quem deu a receita de remédio para hipertensão”, comenta.

A médica da maternidade insistiu que Licyane deveria ser tratada no local em função do risco. “Quando tive consulta, mostrei a receita e ele disse que não era preciso ter atendimento na maternidade porque eu já estava sendo medicada. No mesmo dia eu passei mal e fui para a maternidade novamente. Relatei para a médica o que havia acontecido e ela fez uma carta de próprio punho ao pré-natal para ele entender a necessidade do meu tratamento”, lembra a gestante, afirmando que ainda assim, o médico não a encaminhou para o tratamento na maternidade.

Nesse período, Licyane teve um problema de pele e não sabia o que era. Ela passou mal, relatou e foi atendida na maternidade. O remédio não estava fazendo efeito e pediram que ela solicitasse do médico um encaminhamento para uma dermatologista. O obstetra disse que não daria porque ela estava medicada, alegando que, às vezes, a pele demorar a reagir. Ela saiu da consulta e ficou chorando. Um rapaz do guichê de atendimento do posto a viu chorando, perguntou a razão, pediu a ficha de atendimento dela e a levou para a dermatologista que resolveu atendê-la, mesmo sem o encaminhamento. Ela foi medicada e os problemas na pele melhoraram. Foi a dermatologista quem viu que o remédio receitado na maternidade para a hipertensão era distribuído gratuitamente no posto onde ela estava fazendo o pré-natal. Licyane estava comprando o medicamento porque o médico não deu a requisição para a retirada.

O dia da última consulta, que resultou no vídeo que viralizou nas redes sociais, foi o pior para ela. A gestante havia apresentado sintomas de Covid-19 e estava de repouso. Como o atestado ia acabar e ela estava com dores, a hipertensão e os incômodos do fim de gravidez, solicitou outro atestado. “Ele sempre teve falas racistas, mas nesse dia percebi que ele estava sendo racista de verdade. Ele ria e debochava de mim falando: se olha, se enxerga, você aguenta! Só está fazendo dramazinho, mas a dor que está sentindo é normal. Nem papel de atestado eu tenho. Eu nem sou obrigado a dar”, relembra Licyane.

Neste dia, ela pediu que ele receitasse de novo os remédios que ela estava tomando para controle da hipertensão e para a pele. “Foi quando ele pediu as receitas, ou seja, eu estou tomando remédios e o meu obstetra sequer havia anotado essas informações. Eu tinha tentado mostrar, mas ele não quis ver”, explica.

A demonstradora tem a vida marcada pela violência obstétrica. Além da hipertensão ter interrompido duas gestações e o filho mais velho ter nascido aos sete meses, uma irmã dela morreu durante o parto. “Minha irmã tinha sonhos, mas foi maltratada no momento do seu parto e morreu. Muitos médicos acham que como a gente é negra, a gente é parideira, que a nossa raça aguenta mais. Quando veem que não é o primeiro filho, aí que maltratam mesmo”, desabafa.

Depois que o vídeo foi postado em uma rede social, várias pessoas se mobilizaram. Uma campanha foi feita, por meio de perfis com grande alcance, como o do engenheiro civil Levi Kaique. “Como era um vídeo dela chorando, a gente achou melhor criar uma nova campanha. Explicando o caso e não a expondo tanto naquela situação de vulnerabilidade”, comenta Kaique.

“Eu fiquei indignado porque ela estava claramente mal, sabe? É uma mulher grávida com pressão alta e durante uma pandemia tendo que ir trabalhar mesmo assim, tendo que apelar para internet para ter um direito básico. Tudo isso por conta do racismo”, acrescenta.

Com o dinheiro arrecadado, Licyane conseguiu providenciar fraldas e outros objetos para a bebê. Ela ainda ganhou ensaio de fotografia e muita ajuda, mas o melhor mesmo foi poder contar com uma médica que a atenda de maneira respeitosa. “Muitas coisas boas aconteceram depois daquele vídeo. Consegui uma médica maravilhosa. Pediu exames que o outro médico nem havia pedido. Ela disse que trataria de mim até depois do parto. Dá até felicidade de ir para a consulta, coisa que antes eu não tinha. Deus realmente me surpreendeu”, conta Licyane, à espera de Emanuelly que deve nascer entre o fim de julho e começo de agosto

Violência obstétrica e o viés racial

As violências, sejam físicas, psicológicas ou morais, sofridas pelas mulheres durante o período da gestação, parto, puerpério e também em casos de aborto são definidas como violência obstétrica. Emanuelle Góes, doutora em Saúde Pública e pesquisadora do Centro de Integração de Dados da Fundação Oswaldo Cruz (CIdacs/Fiocruz), na Bahia, afirma que o racismo faz com que a violência obstétrica aconteça de forma mais profunda em mulheres negras, pois é uma intersecção do racismo com o sexismo.

Dados da campanha SUS Sem Racismo, do Ministério da Saúde, de 2014, mostraram que 60% das vítimas de mortalidade materna no país são negras. “As negras são vistas como as que suportam mais dor. As que resistem. Isso faz com que haja uma negligência na atuação profissional, na tomada de decisão em relação à mulher. Muitas vezes, questões que precisam da atuação profissional, seja com médico, enfermeiro ou outro profissional, não ocorre por conta da leitura racista que ocorre com o corpo negro feminino”, explica Emanuelle.

“Boa parte dos estudos mostram impactos diferenciados em relação à violência obstétrica. As negras recebem menos consultas, menos remédio para dor quando necessário, enquanto há uma discussão de excesso de medicalização para as mulheres brancas. As negras experimentam a ausência da intervenção profissional”, complementa a pesquisadora.

O Painel de Monitoramento da Mortalidade Materna, da Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, mostra que a situação ao longo dos anos piorou ainda mais. Em 2019, o pais teve o registro de 1.025 óbitos maternos por causas obstétricas diretas, entre mulheres de 10 a 49 anos. Destas, 681 eram negras (563 pardas e 118 pretas), o que representa 66,4% do total.

Houve a morte ainda de 298 brancas, 18 indígenas, uma amarela e 27 óbitos sem informação racial. “As mulheres brancas estão mais expostas às cesáreas, as negras estão expostas a outros tipos de violência que podem levar até mesmo à morte materna”, diz Emanuelle.

Ginecologia e racismo

A história mostra como o racismo pode ter influenciado na Ginecologia. Considerado como o “Pai da Ginecologia”, James Marion Sims foi pioneiro ao realizar a técnica cirúrgica da fístula vesicovaginal. Por seu trabalho, ele teve seu nome nos anais da Medicina e chegou a ter uma estátua, no Central Park, em Nova York.

No entanto, há alguns anos veio à tona que Sims realizava os procedimentos cirúrgicos em mulheres negras escravizadas e sem uso de anestesia. Sua estátua foi retirada em 2018 e deve ser substituída pela da artista Vinnie Bagwell.

Matéria do portal almapreta.com

Uma mulher negra de 51 anos foi vítima de mais um episódio de violência policial em São Paulo.

O governador João Doria (PSDB) disse que as cenas da violência policial contra uma mulher em Parelheiros, no extremo da Zona Sul de São Paulo, “causam repulsa” e que é “inaceitável a conduta de alguns policiais”. As imagens divulgadas pelo Fantástico neste domingo (12) mostram um policial militar pisando no pescoço de uma mulher negra de 51 anos para imobilizá-la.

“Os policiais militares que agrediram uma mulher em Parelheiros, na Capital de SP, já foram afastados e responderão a inquérito. As cenas exibidas no Fantástico causam repulsa. Inaceitável a conduta de violência desnecessária de alguns policiais. Não honram a qualidade da PM de SP”, afirmou em um post publicado em suas redes sociais.

Os dois PMs ficarão afastados durante a apuração do caso. A Secretaria da Segurança Pública diz que não compactua com esse tipo de comportamento.

Viúva, com cinco filhos e dois netos, ela é uma comerciante que vive de um pequeno bar. E foi no trabalho dela que a mulher se tornou vítima desse episódio de violência policial.

O vídeo mostra os policiais militares abordando um grupo de pessoas em uma tarde de sábado, no dia 30 de maio. Na ocasião os bares e restaurantes estavam proibidos de abrir na capital paulista. A comerciante estava com estabelecimento aberto, um cliente parou o carro com o som alto na frente do bar, o que incomodou a vizinhança que acionou a polícia.

“Ele me bateu e quanto mais eu me debatia mais ele apertava a botina no meu pescoço”, disse a vítima que não quis se identificar com medo dos PMs voltarem.

A mulher conta que pediu que o motorista abaixasse o som e quando saiu viu uma viatura parada e um policial agredindo seu amigo. “Aí eu pedi para o policial não bater mais nele que ele já estava desfalecido, deitado no chão e o policial sobre o rosto dele”.

Nas imagens é possível ver o policial apontando a arma para outro homem, que tira a camisa e ergue os braços. Atrás dele um homem de blusa azul grita para mostrar que está gravando com o celular e o policial recua e vai dar apoio ao colega.

A comerciante está ao lado e pede para soltar o amigo. “Eu pedi para o policial pra parar e ele me empurrou na grade do bar, me deu três socos, me deu uma rasteira para me derrubar, ele quebrou minha tíbia”. Os vídeos não mostram essa parte da ação, apenas o momento seguinte.

“Ele ficou pisando no meu pescoço com meu rosto encostado no chão”, disse a vítima. Em seguida, a mulher é arrastada algemada pelo asfalto até a calçada. Ela conta que desmaiou quatro vezes durante a ação.

Os PMs alegam que foram agredidos primeiro e tiveram que reagir contra a comerciante a amigos dela.

No boletim de ocorrência registrada pelos PMs na delegacia, eles dizem que a mulher usou uma barra de ferro para agredi-los na cabeça e os ameaçado com um rodo. Ela nega.

O BO foi registrado como desacato, lesão corporal, desobediência e resistência contra a comerciante. Ela foi levado para o hospital com ferimentos e perna quebrada. Após atendimento, ficou presa um dia na delegacia. Um dia após ser solta passou por uma cirurgia na perna e levou 16 pontos.

Matéria da https://g1.globo.com/

Feminicídio aumenta 150% na Bahia; mulheres negras são maioria entre as vítimas

Nesta semana, a Secretaria de Segurança Pública do estado da Bahia (SSP/BA) divulgou que durante o mês de maio houve um aumento de 150% nas ocorrências de feminicídio, comparado ao mesmo período do ano anterior. Em maio de 2019, foram contabilizados seis assassinatos de mulheres, em 2020 os casos subiram para quinze, sendo que em todos as vítimas queriam o termino da relação.

Embora o número de crimes tenha aumentado, os registros de violência doméstica reduziram. Autoridades acreditam que as subnotificações estejam ligadas à pandemia do coronavírus. Confinadas em casa com seus agressores, as vítimas não conseguem buscar socorro.

De acordo com o Atlas da Violência, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a Bahia é o segundo estado brasileiro no ranking de violência contra mulher, atrás apenas do Espirito Santo. No estado, o índice de homicídios entre as mulheres autodeclaradas pretas ou pardas (que compõe o grupo de negras) é de 5,9; entre as mulheres não negras a taxa é de 3,4.

A Defensoria Pública do Estado da Bahia – DPE/BA aproveitou a divulgação dos dados para reforçar a luta pelo registro de crimes de violência doméstica e familiar na Delegacia Digital da SSP/BA. Atualmente as vítimas precisam procurar uma delegacia especializada ou ter contato com agentes da polícia, o que dificulta a denúncia.

Através de nota publicada em seu site, Lívia Almeida, coordenadora da Especializada de Direitos Humanos da DPE/BA, a possibilidade de registros de violência não deve mais ser adiada, sendo possível o registro de forma segura para ambas as partes.

“A Defensoria da Bahia é uma das principais portas para atendimento dessas mulheres. Estamos fazendo o atendimento sem a necessidade de registro de ocorrência em prol das mulheres, evitando o risco de contaminação e a revitimização, mas também em prol das profissionais de segurança pública, que tiveram seu quadro reduzido em Salvador. No entanto, a possibilidade de registros de violência doméstica pela Delegacia Digital é necessária e não pode mais ser adiada. O feminicídio é a última etapa do ciclo da violência, mas, antes dele, essa mulher já passou por todos os outros, desde a violência moral e psicológica a violência física”, afirma a defensora pública Lívia Almeida, coordenadora da Especializada de Direitos Humanos da DPE/BA.

Onde buscar ajuda

Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM)
Contato: (71) 3235-4268
Núcleo de Defesa da Mulher da Defensoria Pública (Nudem)
Contato: (71) 3324-1587
Grupo de Atuação Especial em Defesa da Mulher – (Gedem)
Contato: (71) 3321-1949
Delegacias de Atendimento à Mulher (DEAM)
Contato: (71) 3116-7000/7001/7002/7003/7004 (Engenho Velho)/ (71) 3117-8203 (Periperi)
Coordenadoria Estadual das Mulheres em Situação de Violência Doméstica e Familiar
Contato: (71) 3372-1867/1895
Defensoria Pública da Bahia – O contato pode ser feito por telefone (129 ou 0800 071 3121, para todo estado) e de forma virtual (agendamento on-line pelo site da Defensoria; pelo aplicativo Defensoria Bahia, apenas para sistemas Android). A página Defensoria Bahia, no Facebook, também disponibiliza atendimento – basta enviar uma mensagem e selecionar a opção 2 para ser direcionado ao Nudem.

Publicado em Noticias Preta

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