Da fogueira ao microscópio: as mulheres na ciência

Faltam mãos, dedos e memória para contar quantas mulheres se destacariam no mundo do conhecimento e, mais recentemente, no mundo científico. Seria isso maior ainda, e pontuado de forma justa, se não tivessem sido apagadas e negadas dentro de suas descobertas pelo privilegiamento histórico do sexo masculino, estabelecido como o grande referencial. Muitas mulheres, ao longo da ciência moderna, foram desrespeitadas e usurpadas da divulgação e aplicação de suas pesquisas. Vemos que a história foi escrita em detrimento daquelas que construíram, como sujeitos ativos, a sociedade presente.

A desigualdade de gênero pontua, a cada leitura realizada nos quadros da memória humana, a exclusão como parte significativa dessas que, em sua condição feminina, e de diferentes formas, estavam nas contingências de sua existência, fazendo o mundo. A ciência tem, nas mãos escondidas das mulheres, um grande legado de análises científicas dos fenômenos sociais e naturais, que reinventaram e inventaram novas formas de compreensão, de agir e de transformações desses fenômenos para o bem de todos. Apesar da ciência ter sido propalada sob a luz e ótica de somente um signo, as mulheres, mesmo com todos os preconceitos de época e todas as impossibilidades dadas a elas, por meio de suas lutas conseguiram se destacar e se colocaram ativas no campo da descoberta.

À fogueira foram jogadas aquelas que se aventuraram ao protagonismo do conhecimento dos fenômenos naturais, sob a pecha de bruxas, antes que a ciência se formasse como o emblema de um novo tempo.  Aos asilos e manicômios foram conduzidas àquelas que corromperam o silêncio, mostrando além da indignação, a capacidade intelectual, crítica e artísticas desenvolvidas. Muitas consideradas como loucas, histéricas e doentes “sumiram” em suas personalidades, por não atenderem aos ditames do patriarcado erguido como pedestal de honra, qualidade e fortaleza. Infelizmente, e digo, muito infelizmente ainda, esse caso se repete em novas doses de violência contra as mulheres. Perpetua-se em formas de silenciamento e apagamento de muitas mulheres no século XXI.

Em que pese toda essa situação, muitas resistiram numa ação intensa e participativa e, mesmo dentro dos mecanismos de anulação e eliminação de suas personalidades, observações e análises, mostraram suas convicções e talentos, contribuindo em todas as áreas da ciência com seus olhares, inteligências, emoções e  teorias.

Mulheres e ciência no século XX

As mulheres começam a incidir na ciência, ainda que culturalmente e socialmente, a carreira fosse considerada imprópria para esse gênero. Entretanto, muitas tiveram lugar de destaque, a exemplo do prêmio Nobel de Física em 1903 e de Química em 1911 dado a Marie Curie. A despeito disso, a exclusão e a invisibilidade das mulheres cientistas e pesquisadoras é permeada por pensamentos extremamente conservadores e patriarcais.

Ganha corpo no conceito de gênero um contradiscurso que ativa os feminismos críticos, questionando o forte viés sexista que se interpõe na ciência. A ampliação da participação feminina nas atividades científicas gera ganhos substantivos para a sociedade nos seus desenhos democráticos que ultrapassam fronteiras e, trazem para a discussão, fatores do corpo, da vida, da política e do convívio social. Mas, mesmo assim, as desigualdades acontecem nessa dimensão que tem, no trabalho, menores remunerações e pesos diferentes no reconhecimento entre os gêneros.

A cada dia, a mobilização das mulheres derruba os muros nas áreas “tradicionalmente” tidas como masculinas, expondo a existência das lacunas e descabidos éticos e sociais relacionados à participação delas no mundo.

As conquistas feministas, ainda que apresente uma longa história de lutas, são recentes. As décadas de 1930, 1960, 1970 e 1980 foram emblemáticas.  Primeiro com o direito ao voto feminino (CF, 1934); depois com o Estatuto da Mulher Casada (Lei nº 4.121/62); logo após o Código Eleitoral (Lei nº 6.515/77); a aprovação da lei do divórcio, bem como a Constituição de 1988. Esses fatos consagram lutas de maior liberdade e autonomia à ação feminina. A objetividade, a racionalidade e a universalidade foram ampliadas nesse campo de domínio.

A posse do corpo na decisão da procriação com o advento da pílula anticoncepcional, na década de 1970, incorporou uma nova visão de mundo para os sujeitos femininos que entraram na carreira científica de forma mais emancipadas. Devido a esses ganhos, são donas do tempo de sua maternidade (ou não maternidade). Porém, em que pese esses ganhos, a disputa continuou desigual, por uma série de desvantagens legitimadas por leis e pelas relações impregnadas de estigmas à mulher.

Ao final do século XX, após lutas históricas, governos, organizações nacionais e internacionais, associações científicas, institutos de ciência, entre outros, apoiaram as iniciativas de igualdade entre os gêneros no campo da ciência. A inclusão feminina no mundo acadêmico começa a crescer e se reconhece, nas pioneiras, a coragem, a luta, a determinação e a enorme capacidade de realização de trabalho que desafiou e desafia os cânones da misoginia.

Idos medievais em que “Hipátias” foram mortas pelas mãos dos que, no alto d domínio de gênero e à bem de suas falsas e perversas “verdades”, buscaram aniquilar a paixão pelo saber que mulheres, como ela, tinham pela busca de respostas ao desconhecido. Essa cena marca a presença das mulheres na história, naquilo que desejamos não mais ocorrer. O pensamento contemporâneo nos mobiliza a expurgar uma ciência androcêntrica, colonizadora, estigmatizadora e branca. Esse debate passa a se configurar, mais fortemente, no século XXI.

Mulheres da ciência no século XXI

O século XXI demarca um novo momento, em que as lutas dos movimentos feministas colocam em cena a importância da isonomia no trabalho e a pauta da mulher pesquisadora/cientista não fica de fora desse assunto. Há um aumento considerável do número de mulheres em cursos superiores antes considerados masculinos, como as engenharias e os cursos agrários, entre outros. Importantes avanços se tornam concretos à participação no campo científico e muitas mulheres conquistam seu protagonismo. Sua presença como liderança nos centros de pesquisas e nas universidades é crescente; e o aumento das teses nas prateleiras das bibliotecas se concretiza como resultado de tantas lutas. Embora sejam concretos esses grandes avanços, a participação feminina ainda está aquém da masculina.

Novas formas de inserções compõem um mosaico de capacidade constitutiva no processo ativo e investigativo de agir com a ciência, atuando e pensando gêneros, etnias, pobrezas, meio ambiente, educação, culturas e territórios. Tais formas repercutem nos tempos atuais, com um número pequeno e desigual de pesquisadoras mundiais.

A pesquisa e a ciência ainda são caminhos difíceis a trilhar, sobretudo, para as mulheres que acumulam hoje as tarefas de serem mães, trabalhadoras, e ainda terem que provar a sua competência, mesmo em situações de desigualdade nas oportunidades. Além disso, são elas as que mais sofrem com assédios, cobranças, violências de todas as ordens, seja física ou emocional, e são vítimas de acusações, gerando um complexo de culpas, que não só diminuem sua autoestima, como a fragilizam no medo.

Sendo assim, a luta pela igualdade de direitos sociais entre os gêneros aponta para as lacunas que são direcionadas ao feminino, centrando nos aspectos políticos e econômicos, que negam a igualdade entre os salários e a importância desse, independente de qual gênero o faz e quais os resultados na sociedade.

O investimento na produção de conhecimento é redesenhado nas pautas reivindicatórias, ganhando contornos de profundas mudanças no mundo científico e acadêmico. Vimos, na crise da Covid-19, um grande número de mulheres pesquisadoras e cientistas sendo convocadas para descoberta de vacinas, remédios e procedimentos, apontando que nesse momento de quarentena, a participação em igualdade de gênero é fundamental.

Nos países em que as mulheres ocupam os lugares de chefe de Estado, respeitando a ciência, foram conduzidas políticas corretas e adequadas de contenção à pandemia, logrando os melhores resultados entre as nações afetados pela doença. Nesse âmbito entendemos que, como a política, a ciência não é “neutra” e nunca foi em relação ao gênero e, também, por não ser estática, as bandeiras levantadas há séculos buscaram superar o local de isolamento dissimulado dado às mulheres.

Por fim, a decolonização como ponto de discussão no século XXI, leva a pensar, historicamente, que no mínimo, metade da população foi proibida de fazer ciência, pelo único motivo de ser mulher.  Essa matriz opressora, no sentido dos gêneros, aponta as dicotomias e separações que excluem, silenciam e matam, levando ao flagelo o pronome “nós” e pondo em relevo o pronome “ele”.

As mulheres cientistas

O novo estar das mulheres no mundo da ciência garante uma posição mais ativa e independente no campo da pesquisa. O apoio nas possibilidades do domínio do seu próprio tempo; da posse do corpo em determinar as suas escolhas; a liberdade do fazer e querer e a razão de garantias no aspecto legislativo, por via não mais da submissão feminina, demarcam novas frentes de participação e diálogos.

O debate sobre a mulher na ciência aponta, de forma crítica, o viés sexista nas universidades e centros de pesquisa, bem como a sua sub-representação nesse cenário, ou mesmo, em outros contextos específicos, em instituições científicas. Vemos o poder e a agência de si serem pontos assumidos pelas cientistas, principalmente, quando se propõem a uma ciência que considere a maternidade, a casa e a condição de ser, ao mesmo tempo, mulher e cientista nas suas múltiplas jornadas.

Nesse percurso, as atividades desenvolvidas no campo da ciência, por elas, devem ser cumpridas, sem que haja conflitos geradores de dor e culpas por terem que executar uma tarefa em detrimento da outra. As reivindicações das mulheres fortalecem a visão dialogal, democrática, participativa, polifônica, inclusiva, equitativa e simétrica, não somente do ponto de vista de gênero, mas também aos fatores que se ligam aos liames das irresoluções do quadro sociopolítico vivido em sociedade. Nesse bojo há de se considerar fatores sociais como composição das famílias, etnia, maternidade e trabalho.

Essas questões requerem medidas às diferentes representações de trabalho, para que se reconheça as especificidades envolvidas das mães cientistas/pesquisadoras, no seu labor. A essas deve ser garantida a participação em eventos, reuniões constantes e profundas, entre outros. Assim, reforçar a importância da representatividade das mães no mundo acadêmico e científico é fato de luta que tem aportado na igualdade de gênero. Qualquer situação que diminua ou impeça a representatividade das mulheres na Ciência há de ser superada.

Dentro do pressuposto acima, habita sempre outras questões que são perpassadas por motivos teóricos e metodológicos voltados, do mesmo modo, à baixa participação de cientistas pobres, negras, mães e gays nesse cenário. A complexidade dessa realidade traz a produção e o fazer científico nas assimetrias herdadas que evocam, no tempo vivido, a equidade dos gêneros, bem como o colapso patriarcal e o fim da submissão ancestral.

Uma homenagem

Homenagear é sempre uma ação que remete ao reconhecimento de algo ou alguma coisa feita por um alguém. E a homenagem aqui vai para as mulheres pesquisadoras/cientistas como emblema de um caminho de possibilidade. A história nos presenteia com a existência de mulheres que conseguiram conquistar seu lugar na ciência.

O cerzir social dos movimentos feministas tem em vários nomes e rostos, nacionais e internacionais, as incontáveis mãos femininas colocadas em pelejas e em olhos vertidos na resposta e concretização de suas hipóteses. Herdamos delas os caminhos colocados na práxis do saber e do prazer da descoberta.

Cabe destacar que com todos os obstáculos postos às mulheres na ciência, as mulheres negras tiveram que superar, além do preconceito de gênero, o racismo estrutural, a necropolítica  e limitações impostas por essas ideias.

Anastácias escravizadas povoaram esse universo de mulheres amantes do conhecimento e conhecedoras das ervas e das curas. Num mundo entre iguais ela teria a possibilidade de manejar o microscópio e de hoje ser lembrada como a “Cientista Anastácia”.

Homenageio a todas as mulheres amantes do conhecimento, as mulheres cientistas que assinam cada vez mais as pesquisas, dando novos contornos ao mundo.

E agora…

Iniciei o texto dizendo que faltariam mãos, dedos e memória para contar essas mulheres. Nessa homenagem milhões ficaram de fora. Isso porque tantas e tantas outras estão a comandar equipes de pesquisas, estão em seus laboratórios, bibliotecas e escritórios, criando projeto mundo afora. Em sua maioria são mães cientistas, professoras e pesquisadoras, que apesar das dificuldades no meio acadêmico e científico, continuam, perseveram, organizando seus saberes, numa tentativa de naturalizar a maternidade e sua condição de mulher na academia e centros de ciência.

Ao fim e ao cabo, e não por final, me cabe homenagear as mulheres médicas, enfermeiras, nutricionistas, laboratoristas, pesquisadoras, por esse momento tão singular de uma Covid-19.

Cabe homenagear aquelas que não estando diretamente na ciência, viabilizam as que estão, tornando concreto e existente esse trabalho que é de todas para todas e todos. Obrigada a todas as mulheres que se almejam numa força única: a de ser dona de suas decisões, seus corpos, vontades presentes e futuros, prazeres, sonhos, desejos, conhecimentos, descobertas e de sua Ciência! Da Ciência que é, enfim, na gramática dita, o substantivo feminino.

 

Maylta dos Anjos é professora e pesquisadora da UNIRIO e do IFRJ na área de educação ambiental, ensino de ciências e sociedade.

 

Texto Originalmente publicado em: https://diplomatique.org.br/

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