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Preta defende preta

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 Por Ana Verena Menezes

 

 

A temática “ Nós, mulheres negras” por si só retira a possibilidade de qualquer abordagem impessoal sobre o assunto: aqui somos nós, pretas, falando sobre nossas vivências.  Esse texto se propõe de forma breve e não exaustiva a discutir a ambiguidade de ser mulher, negra, advogada e ativista feminista e ao mesmo tempo apoiar outras mulheres negras vítimas de violência de gênero. Ainda que aparentemente ocupemos lugares diferentes nessa luta somos atingidas por uma violência estrutural que se apresenta em diversas formas e níveis.

 

O sistema jurídico não foi desenhado para a mulher e muito menos para a mulher negra. Essa afirmação é facilmente confirmada quando analisamos historicamente como surgiram as primeiras codificações e constituições do Brasil. A primeira codificação existente no Brasil foi o Código Civil que tinha como objetivo principal a proteção da propriedade. Não me estenderei muito sobre o assunto mas o fato é que mulheres não eram detentoras de propriedade alguma e as mulheres negras muito menos. A mulher negra no Brasil que por muito tempo esteve na condição de escrava era considerada um bem, posse e não proprietária de qualquer coisa.

 

Essas pequenas considerações são importantes para entender as desigualdades que se refletem hoje em dia. O ambiente jurídico, apesar de ter cada vez mais a presença de mulheres, mantém os mesmos valores machistas e racistas. Ser mulher negra e advogada é uma posição que definitivamente apresenta uma série de percalços extras. Desde não ser sequer reconhecida como advogada, à falta de espaço laboral, o não reconhecimento das suas habilidades e à pressão estética. Ser mulher negra e advogada é estar lutando contra tudo e todos, porque sua pele, seu cabelo, seu corpo não são nem um pouco o que se espera de uma profissão que foi por muito tempo destinada a uma elite branca e machista.

 

Enquanto o próprio mundo jurídico ignora ou tenta conformar os nossos corpos estamos ao mesmo tempo lidando com opressões externas e no caso da TamoJuntas defendendo mulheres da violência de gênero. Os índices de violência de gênero têm aumentado para as mulheres negras enquanto diminuiu em relação às mulheres brancas. As mulheres negras em verdade vivem em um ambiente hostil que se revela em suas relações afetivas, no abandono e solidão, na falta de poder econômico, ao assistirem seus filhos negros serem os maiores vitimados no genocídio da juventude negra. As mulheres negras são a maioria população carcerária nas prisões femininas, não estão representadas como as grandes protagonistas das histórias, não são celebradas ou até escaladas para filmes, novelas e na mídia.  As mulheres negras sofrem violência até no momento do parto quando são equivocadamente interpretadas como menos sensíveis à dor, as mulheres lésbicas, bi e trans negras agregam mais um fator que as colocam como potenciais vítimas.

 

Dentro desse contexto violento a mulher negra advogada ao tempo em que sofre uma pressão que a compele a não estar incluída no mundo jurídico tem o papel de apoiar e fazer valer os direitos de outras mulheres negras. No ativismo e no trabalho voluntário voltado para mulheres esse papel se reforça. Encontramos motivação na crença da mudança e na esperança de proporcionar a justiça a essas mulheres. Encontramos motivação quando uma cliente negra diz: que bom ver você aqui,  queria que minha filha pequena visse uma advogada negra e se inspirasse em você.

 

Essa semana foi veiculada uma notícia na qual uma mulher negra ajudou a uma desconhecida que desmaiou na rua. Ela passou oito horas no posto de saúde sem querer deixar essa outra mulher preta sozinha à própria sorte. Essa notícia de certo modo reflete um pouco do que é o sentimento do voluntariado de preta para preta. Não podemos deixar vítimas de tantas violências sem apoio diante das injustiças que acontecem com elas – por serem mulheres e por serem pretas. Porque no fundo não tem muita coisa que nos distancie, poderia ser eu ali mas por acaso não é. Ali estamos juntas utilizando as ferramentas possíveis (dentro de um sistema que não foi feito para nós) para colocar ao nosso favor a justiça que merecemos.

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